(Série: Viver Brasília)
Existe uma
coincidência no calendário cívico brasileiro que raramente recebe a atenção que
merece. O feriado de Tiradentes, celebrado em 21 de abril, é também o
aniversário de Brasília — fundada em 21 de abril de 1960 pelo presidente
Juscelino Kubitschek. Dois símbolos nacionais, duas histórias radicalmente
diferentes, uma mesma data. Acaso ou escolha deliberada?
A decisão de
inaugurar a nova capital justamente no dia de Tiradentes não foi aleatória. JK
queria que Brasília nascesse carregada de significado histórico, conectada ao
imaginário de sacrifício, ousadia e ruptura que o mártir mineiro encarnava. A
cidade nascia como símbolo antes mesmo de ter ruas, árvores ou moradores.
Uma cidade que nasceu como ideia
Brasília é um
caso único na história urbana mundial: uma capital planejada do zero,
construída em 41 meses no meio do cerrado, pensada não apenas para abrigar o
governo federal, mas para encarnar uma visão de Brasil. O traçado de Lúcio
Costa em forma de avião — ou de pássaro, dependendo de quem olha —, os
monumentos abstratos de Oscar Niemeyer, a escala que faz o ser humano se sentir
pequeno diante das instituições: tudo foi projetado para comunicar algo.
Essa algo
era, na visão de seus criadores, a modernidade, a capacidade do Brasil de se
reinventar, de olhar para o futuro sem se prender ao passado colonial das
cidades litorâneas. Brasília seria a prova concreta de que o país podia ser
diferente — mais justo, mais eficiente, mais bonito.
Brasília
foi construída para ser um símbolo. O problema dos símbolos é que eles prometem
mais do que podem cumprir — e quando a realidade não corresponde à promessa, o
peso da expectativa pode se tornar esmagador.
O peso de ser símbolo
Carregar o
peso de ser símbolo nacional tem um custo. Para Tiradentes, o custo foi
literalmente a vida — e a transformação póstuma em figura que cada geração
reinterpreta conforme suas necessidades políticas. Para Brasília, o custo tem
sido diferente, mas igualmente real.
A cidade que
deveria ser o símbolo de um Brasil moderno e igualitário convive há décadas com
uma das maiores concentrações de renda do país. As cidades-satélites que
cresceram ao redor do Plano Piloto — Ceilândia, Samambaia, Planaltina,
Brazlândia — abrigam a maior parte da população do DF em condições muito
distantes do ideal modernista que deu origem à capital.
A distância
física entre o Eixo Monumental e a periferia do DF é também uma distância
simbólica: entre a Brasília dos cartões-postais e a Brasília onde a maioria das
pessoas realmente vive, trabalha e cria seus filhos.
O que os moradores sentem sobre tudo isso
Quem nasce e
cresce em Brasília desenvolve uma relação singular com esse peso simbólico.
Muitos candangos e seus descendentes — os filhos e netos daqueles que vieram de
todo o Brasil para construir a capital — carregam um orgulho genuíno pela
cidade, misturado a uma consciência aguda de suas contradições.
Há algo de
peculiar em crescer em uma cidade onde os prédios mais importantes do país
ficam a poucos quilômetros de casa. Onde o Congresso Nacional, o Palácio do
Planalto e o Supremo Tribunal Federal não são cenário de noticiário distante,
mas paisagem cotidiana. Isso cria uma consciência política e cívica que os
próprios brasilienses frequentemente reconhecem como diferente da de outras
cidades brasileiras.
Ao mesmo
tempo, essa proximidade com o poder pode gerar tanto engajamento quanto
ceticismo. Ver de perto as contradições das instituições que deveriam encarnar
os valores da República é uma experiência que deixa marcas.
Tiradentes, Brasília e a pergunta que não cala
No fundo,
tanto Tiradentes quanto Brasília nos fazem a mesma pergunta: o que significa
construir um símbolo nacional em um país tão diverso, desigual e contraditório
quanto o Brasil?
Talvez a
resposta mais honesta seja que símbolos não precisam ser perfeitos para serem
úteis. Tiradentes não precisa ter sido o herói sem manchas que a República
inventou para que sua história nos diga algo verdadeiro sobre coragem e
sacrifício. Brasília não precisa ter realizado todas as promessas do modernismo
para ser uma cidade real, viva e amada por quem nela vive.
O que não
podemos fazer é deixar de olhar criticamente para esses símbolos — e para as
histórias que contamos sobre eles. Porque as histórias que uma nação escolhe
contar sobre si mesma revelam, sempre, o que ela ainda espera se tornar.
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