No aniversário do maior nome da literatura infantil brasileira, uma questão que não pode mais ser ignorada: como ensinar Lobato sem silenciar o que ele escreveu sobre raça.
Todo 18 de abril, o Brasil celebra o Dia Nacional do Livro Infantil em homenagem ao escritor Monteiro Lobato, nascido nessa data em 1882. Lobato é, sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura brasileira — criador do Sítio do Picapau Amarelo, de Narizinho, Pedrinho, Emília e do inconfundível Visconde de Sabugosa. Para gerações de crianças brasileiras, ele foi a porta de entrada para o universo da leitura.
Mas Lobato
também escreveu textos profundamente racistas, com descrições degradantes de
personagens negros, defesa de teorias eugenistas e visões sobre raça que hoje —
com razão — nos causam repulsa. E é justamente essa tensão entre o gênio
literário e o pensamento preconceituoso que a data convida a enfrentar com
honestidade.
O que Lobato escreveu — e por que importa
Em obras como
"Caçadas de Pedrinho" e em textos de não ficção, Lobato expressa
visões explicitamente racistas sobre a população negra brasileira, descrevendo
personagens com estereótipos que reproduzem e reforçam o imaginário
desumanizador do período pós-escravidão. Em 2010, o Conselho Nacional de
Educação chegou a receber uma representação pedindo a retirada de uma de suas
obras do Programa Nacional Biblioteca da Escola — o debate foi intenso e não
teve desfecho definitivo.
Ignorar isso
seria uma forma de cumplicidade. Mas banir Lobato das escolas seria também um
equívoco: empobreceria o repertório literário das crianças e perderia a
oportunidade pedagógica mais valiosa que a literatura pode oferecer — a de
mostrar que os livros são reflexos do seu tempo, e que ler criticamente é uma
habilidade que se aprende.
Lobato
não precisa ser um herói sem manchas para ser estudado. Ele pode ser estudado
exatamente por ter manchas — e é nesse estudo que a educação antirracista
encontra um de seus territórios mais férteis.
Como abordar o tema em sala de aula
Especialistas
em educação antirracista recomendam o que chamam de leitura contextualizada:
apresentar o texto literário junto com seu contexto histórico, social e
político. Isso não significa justificar o preconceito, mas explicar de onde ele
veio — e por que ele é errado.
Para crianças
menores, a conversa pode começar com perguntas simples: "Você acha justo o
jeito como esse personagem foi descrito? Por quê?" Esse exercício
desenvolve empatia, pensamento crítico e a capacidade de questionar o que está
escrito — habilidades essenciais para qualquer leitor.
Para alunos
mais velhos, o estudo de Lobato pode ser enriquecido com textos de autores
negros brasileiros do mesmo período — como Lima Barreto, que escreveu sobre as
contradições do Brasil pós-abolição com uma perspectiva radicalmente diferente.
A comparação entre as duas vozes é, por si só, uma aula poderosa.
O papel das famílias nessa conversa
A escola não
é o único espaço onde essa conversa precisa acontecer. Pais e responsáveis têm
papel fundamental em mediar a relação das crianças com o que leem — incluindo
os clássicos problemáticos.
Uma boa
prática é ler junto com a criança e conversar sobre as passagens que incomodam.
Frases como "Esse livro foi escrito há muito tempo, quando as pessoas
pensavam de um jeito que hoje sabemos que é errado" criam um diálogo
honesto sem transformar a leitura em experiência traumática ou proibida.
O objetivo
não é proteger as crianças do passado, mas prepará-las para compreendê-lo — e
para construir um futuro diferente.
Celebrar Lobato é também problematizá-lo
O Dia
Nacional do Livro Infantil pode e deve ser uma celebração genuína da literatura
brasileira para crianças. Lobato tem obras de beleza e criatividade
indiscutíveis, que seguem encantando leitores de todas as idades. Reconhecer
isso não exige apagar o que foi problemático.
Uma educação
honesta e comprometida com a equidade racial é capaz de fazer as duas coisas ao
mesmo tempo: valorizar o legado literário de Lobato e ensinar as crianças a
olhar com olhos críticos para qualquer texto — inclusive para os clássicos que,
por muito tempo, foram apresentados como perfeitos e inquestionáveis.
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