Herói ou mito? O que Tiradentes representa para o brasileiro hoje

O nome está em ruas, praças, shoppings, escolas e batalhões militares. O rosto estampou cédulas de dinheiro e cartazes escolares por gerações. Todo brasileiro conhece o nome Tiradentes — mas poucos conhecem de verdade o homem por trás do mito. E essa distância entre a figura histórica e o símbolo construído sobre ela diz muito sobre como o Brasil se relaciona com sua própria história.

Na semana em que o país comemora o feriado de Tiradentes, vale a pena fazer uma pergunta honesta: o que Joaquim José da Silva Xavier representa para o brasileiro de 2026? E o que a forma como o celebramos revela sobre nós mesmos?

Quem foi Tiradentes, de verdade

Nascido por volta de 1746 em São João del-Rei, Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier era filho ilegítimo, teve infância humilde e jamais chegou a ser mais do que um alferes — a patente mais baixa da cavalaria colonial. Exerceu diversas profissões: tropeiro, minerador, dentista prático (daí o apelido Tiradentes). Era inquieto, eloquente e, segundo os registros históricos, por vezes imprudente.

Sua participação na Inconfidência Mineira, movimento de 1789 que pretendia libertar a Capitania de Minas Gerais do jugo português, foi real — mas sua liderança efetiva é debatida pelos historiadores. Havia figuras mais influentes no movimento, como o poeta Cláudio Manuel da Costa e o padre Carlos Correia de Toledo. Tiradentes acabou sendo o único executado, em 21 de abril de 1792, em parte porque os demais conseguiram clemência e em parte porque ele próprio assumiu para si a responsabilidade pelos planos da conspiração.

Tiradentes foi um homem real, com contradições reais. A história que chegou até nós é uma construção — útil, poderosa, mas que precisa ser lida com olhos críticos para que possamos entender o que ela diz sobre quem a construiu.

A fabricação do herói republicano

A figura de Tiradentes como herói nacional não nasceu com sua morte. Foi construída décadas depois, sobretudo após a Proclamação da República, em 1889. Os republicanos brasileiros precisavam de um mártir fundador — alguém que tivesse morrido pela liberdade e pela independência antes mesmo que elas existissem. Tiradentes encaixou perfeitamente no molde.

A comparação com Jesus Cristo foi cultivada intencionalmente: a data da execução próxima à Páscoa, a representação com cabelos longos e barba, a ideia do sacrifício pelo bem coletivo. Pinturas do final do século XIX reforçaram essa imagem, transformando o alferes provinciano em figura quase sagrada.

O historiador José Murilo de Carvalho, em seu clássico estudo sobre a formação de heróis nacionais no Brasil, analisa como Tiradentes foi o único personagem histórico brasileiro que conseguiu ser simultaneamente apropriado por correntes políticas opostas — republicanos e monarquistas, conservadores e progressistas. Essa maleabilidade é a marca de todo grande mito nacional.

O que o mito revela sobre o Brasil

A escolha de Tiradentes como patrono da nação diz algo interessante sobre o imaginário brasileiro. Ao contrário de outros países, que escolheram heróis vitoriosos — generais, reis, fundadores de impérios —, o Brasil elegeu um perdedor. Um homem que foi enforcado, esquartejado e teve suas partes expostas publicamente como aviso aos que ousassem desafiar a Coroa.

Há nessa escolha algo que ressoa profundamente com a psicologia coletiva brasileira: a identificação com aquele que sofreu injustamente, que lutou por um ideal maior do que si mesmo e pagou com a própria vida sem ver o fruto de seus esforços. É um herói trágico, não triunfante — e isso o torna, paradoxalmente, mais humano e mais acessível.

Tiradentes em 2026: o que ainda faz sentido

Celebrar Tiradentes hoje não precisa ser um exercício vazio de patriotismo formal. Pode ser uma oportunidade genuína de refletir sobre temas que ele encarna — mesmo que involuntariamente: a coragem de questionar o poder estabelecido, o preço da dissidência, a tensão entre interesse individual e bem coletivo, e a forma como as sociedades constroem e destroem seus símbolos conforme a narrativa que precisam contar sobre si mesmas.

Em tempos em que a confiança nas instituições está em crise e o debate sobre o que significa ser brasileiro nunca esteve tão acirrado, Tiradentes pode ser mais do que um feriado. Pode ser um espelho — incompleto, construído, às vezes distorcido, mas capaz de revelar algo verdadeiro sobre quem somos e sobre o país que ainda estamos tentando construir.


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