(Série: Viver Brasília)
Brasília é mundialmente conhecida pela arquitetura de concreto e vidro, pelas curvas de Niemeyer, pelo traçado de Lúcio Costa. Essa é a face que aparece nos livros, nos documentários, nos guias de viagem.
Mas existe outra Brasília — menos fotografada, menos celebrada nos circuitos oficiais — feita de mãos que trabalham barro, tecido, tinta e madeira. De artistas e artesãos que carregam nas suas criações a memória do cerrado, a herança dos candangos e a identidade de um povo que construiu uma cidade e foi, ao longo das décadas, construindo também uma cultura própria.
Conhecer essa Brasília é encontrar o que nenhum monumento consegue guardar sozinho.
A cerâmica que conta histórias
Entre as formas de expressão artesanal mais enraizadas no Centro-Oeste, a cerâmica ocupa um lugar especial. A argila do cerrado — avermelhada, rica em minerais — é trabalhada por ceramistas do DF e entorno que produzem desde utensílios funcionais até peças de arte que dialogam com a paisagem e a fauna do bioma.
Na Feira dos Importados e no Espaço Cultural 508 Sul é possível encontrar ceramistas que mantêm técnicas tradicionais herdadas de Goiás e Minas Gerais, adaptadas ao contexto urbano de Brasília. Peças que retratam o lobo-guará, a ema, o ipê, o buritizeiro — elementos do cerrado transformados em objetos que cabem na palma da mão mas carregam um território inteiro.
Algumas ceramistas do DF têm ganhado reconhecimento nacional, com peças em exposições e coleções que chegaram a museus de outras cidades. Mas a maior parte do trabalho acontece de forma discreta, em ateliês instalados em garagens e fundos de quintal nas regiões administrativas, longe dos holofotes e perto do forno.
O artesanato do barro de Planaltina
Planaltina, a cidade mais antiga do DF, tem uma tradição de artesanato em barro que antecede a própria Brasília. Artesãos da região produzem peças que misturam influência goiana com elementos do cotidiano do cerrado — figuras de animais, representações religiosas, objetos decorativos que carregam a memória de um interior que resiste dentro dos limites do Distrito Federal.
Visitar Planaltina é, entre outras coisas, ter acesso a esse artesanato num contexto que faz sentido — nas feiras locais, nas pequenas lojas do Setor Tradicional, nas mãos de artesãos que em alguns casos representam a terceira ou quarta geração de uma família dedicada ao ofício.
A tecelagem e os bordados do cerrado
O trabalho com tecido tem raízes profundas na cultura popular do Centro-Oeste. Tecelãs e bordadeiras do DF e entorno produzem peças que utilizam palha de buriti, fibra de bananeira, algodão cru e outros materiais naturais do cerrado — numa tradição que é tanto artesanato quanto manifesto de pertencimento ao bioma.
O buriti merece destaque especial. A palmeira-símbolo do cerrado fornece matéria-prima para chapéus, bolsas, cestos e objetos decorativos produzidos por artesãos de comunidades do DF e de municípios goianos vizinhos. O trabalho com palha de buriti é reconhecido pelo IPHAN como expressão cultural imaterial e está presente em feiras e espaços culturais de Brasília com uma regularidade que merece mais atenção do que recebe.
A música que nasceu aqui
Quando se fala em cultura do DF, a música é um capítulo que não pode ser omitido. Brasília tem uma das cenas musicais mais originais e diversas do Brasil — e parte significativa dela tem raízes na cultura popular do cerrado e do sertão que os candangos trouxeram na bagagem.
O forró, a catira, a moda de viola, o congado — expressões musicais trazidas por migrantes nordestinos, goianos e mineiros — encontraram em Brasília um terreno fértil para se manter vivas e se transformar. Grupos que mantêm essas tradições musicais se apresentam em espaços culturais, festas comunitárias e eventos das regiões administrativas ao longo de todo o ano.
Ao mesmo tempo, a música popular urbana do DF — do punk oitentista que colocou Brasília no mapa do rock nacional ao hip-hop que emergiu de Ceilândia como voz de uma geração — é também expressão cultural enraizada na história específica da cidade.
Onde encontrar
Espaço Cultural 508 Sul — Ateliês de artistas visuais, exposições temporárias e uma programação que inclui com frequência artesãos e artistas ligados à cultura do cerrado.
Feira da Torre — Nos fins de semana, reúne artesãos do DF e região com peças de cerâmica, palha de buriti, bordado e outros trabalhos manuais com identidade regional.
Centro de Artesanato do DF — Espaço dedicado exclusivamente ao artesanato local, com peças de artesãos cadastrados e uma curadoria que valoriza a produção com identidade cultural do Distrito Federal.
Feiras das regiões administrativas — Ceilândia, Samambaia, Planaltina, Gama e outras regiões têm feiras regulares onde artesãos locais vendem diretamente ao público, frequentemente com preços mais acessíveis e histórias mais diretas por trás de cada peça.
Museu de Arte de Brasília e Museu Nacional — Além das exposições temporárias, mantêm acervos e programações que incluem artistas do DF com trabalhos ligados à identidade cultural do cerrado e da cidade.
O que está em jogo
Cada artesão que para de trabalhar leva consigo uma técnica, uma memória, um elo com uma tradição que não se recupera facilmente. O artesanato e a arte popular não são apenas produtos — são formas de conhecimento acumulado ao longo de gerações, formas de ver e interpretar o mundo que existem apenas naquele fazer específico.
Brasília, jovem demais para ter séculos de tradição e velha o suficiente para começar a perder as suas, está num momento em que o reconhecimento e o apoio a esses artistas e artesãos é ao mesmo tempo urgente e possível.
Comprar uma peça de cerâmica numa feira, visitar um ateliê, compartilhar o trabalho de um artesão local — são gestos pequenos que têm peso real na sustentabilidade de uma cultura que merece muito mais do que ficar à sombra do concreto armado.
Viver Notícia — Viver Brasília
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