(Série: Viver Brasília)
Há algumas décadas, o Lago Paranoá era mencionado em Brasília com uma mistura de vergonha e resignação. A água estava escura, o cheiro era ruim em vários trechos, a proliferação de algas tinha chegado a níveis que bloqueavam a luz solar e sufocavam a vida aquática. Especialistas falavam abertamente em morte do lago.
Hoje, o Paranoá é um dos cartões-postais mais amados da capital. Suas margens concentram restaurantes, clubes, parques e uma orla que atrai moradores e visitantes ao longo de todo o ano. Esportes náuticos, pesca, passeios de barco — o lago voltou a ser um lago de verdade.
O que aconteceu entre esses dois momentos é uma das histórias ambientais mais importantes — e menos contadas — do Distrito Federal.
Como o lago nasceu
O Lago Paranoá não é natural. Foi criado artificialmente pelo represamento do Rio Paranoá, por determinação do próprio projeto urbanístico de Brasília. Lúcio Costa incluiu no plano original a ideia de um lago artificial que funcionaria como elemento paisagístico e regulador do microclima da cidade — amenizando a aridez do cerrado e criando uma fronteira natural que contribuiria para a beleza do conjunto urbano.
A barragem foi concluída em 1959, um ano antes da inauguração da capital. O lago levou cerca de dois anos para atingir seu nível definitivo — 38 quilômetros quadrados de espelho d'água, com profundidade média de onze metros.
Por alguns anos, o Paranoá cumpriu exatamente o papel que Lúcio Costa imaginou. As margens eram frequentadas, a água era limpa o suficiente para banho, e o lago se tornou rapidamente parte da identidade da nova capital.
O colapso que quase não teve volta
À medida que a cidade cresceu — muito além do que o projeto original previa — o lago começou a receber uma carga de esgoto que seu ecossistema não conseguia absorver. Sem tratamento adequado, o esgoto doméstico e industrial de uma cidade em expansão acelerada desaguava no Paranoá e nas bacias que o alimentavam.
O resultado foi um processo acelerado de eutrofização — o excesso de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio provenientes do esgoto, alimentou uma proliferação explosiva de cianobactérias e algas que consumiram o oxigênio disponível na água, sufocando peixes e outras formas de vida aquática.
Na década de 1970 e início dos anos 1980, o lago estava em colapso. A água verde e malcheirosa em vários pontos era símbolo de um fracasso ambiental urbano que repercutia nacionalmente. Havia quem defendesse que o lago era irrecuperável.
A virada
A recuperação do Lago Paranoá começou com uma decisão que parecia óbvia mas que levou décadas para ser implementada de forma efetiva: tratar o esgoto antes que ele chegasse ao lago.
A construção e modernização das Estações de Tratamento de Esgoto Norte e Sul — que passaram a tratar o efluente com remoção de fósforo antes do lançamento no lago — foi o fator determinante da recuperação. O processo foi gradual, levou anos e exigiu investimento contínuo, mas os resultados foram mensuráveis e progressivos.
Ao longo dos anos 1990 e 2000, a qualidade da água melhorou de forma consistente. Os peixes voltaram. As algas recuaram. A transparência da água aumentou. E os brasilienses, que haviam se afastado das margens, começaram a voltar.
Hoje, o Lago Paranoá é monitorado regularmente pela Adasa — Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do DF — e mantém índices de qualidade que permitem a prática de esportes aquáticos e a pesca em grande parte de sua extensão.
O que o lago oferece hoje
As margens do Paranoá concentram alguns dos melhores programas de lazer e gastronomia de Brasília. O Pontão do Lago Sul, com sua orla animada de restaurantes e bares, é um dos pontos de encontro mais frequentados da cidade. O Parque Ecológico e de Uso Múltiplo do Lago Paranoá, na margem norte, oferece áreas de lazer, pistas de caminhada e acesso à beira d'água num ambiente mais tranquilo e preservado.
A Ermida Dom Bosco, numa das pontas do lago, tem um dos mirantes mais bonitos de Brasília — especialmente ao pôr do sol, quando a luz dourada do inverno se reflete na água e a silhueta da cidade aparece ao fundo com uma beleza que justifica qualquer desvio de rota.
Os esportes náuticos também encontraram no Paranoá um ambiente favorável. Vela, caiaque, stand up paddle, ski aquático e remo são praticados regularmente por clubes e por praticantes independentes que utilizam os acessos públicos ao longo das margens.
Uma lição que vai além do lago
A história do Paranoá é, antes de tudo, uma lição sobre o que é possível quando existe vontade política, investimento consistente e tempo suficiente para que a natureza responda.
Lagos não se recuperam da noite para o dia. Ecossistemas aquáticos perturbados levam anos, às vezes décadas, para restabelecer o equilíbrio. Mas eles respondem — desde que a pressão que os destruiu seja removida e substituída por condições que permitam a recuperação.
Num momento em que muitos corpos d'água brasileiros enfrentam desafios semelhantes aos que o Paranoá enfrentou nas décadas de 1970 e 1980, a história do lago de Brasília tem algo importante a dizer: recuperação ambiental é possível. Já foi feita antes. E pode ser feita de novo.
O Paranoá é a prova viva disso — espelhando o céu azul do inverno brasiliense com uma clareza que, por muito tempo, pareceu impossível de recuperar.
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