Festa Junina no DF: onde a tradição nordestina ganhou sotaque cerradeiro

(Série: Viver Brasília)

Tem algo de especialmente bonito numa festa junina em Brasília. As bandeirinhas coloridas no vento seco do inverno, o cheiro de canjica e milho verde no ar, o forró que sai de caixas de som espalhadas por quadras e escolas — e, por trás de tudo isso, uma história que começa muito antes da inauguração da capital.

As festas juninas do Distrito Federal não são uma importação recente. São uma herança direta dos candangos — e ao longo de décadas, ganharam aqui uma identidade própria, que mistura tradição nordestina com o jeito de ser de uma cidade que foi construída por gente de todo o Brasil.

A herança dos candangos

Quando Juscelino Kubitschek convocou o Brasil para construir a nova capital, responderam principalmente os nordestinos. Pernambucanos, cearenses, paraibanos, maranhenses — eles vieram aos milhares, trouxeram na bagagem a força para erguer uma cidade e, junto com ela, a cultura que os formou.

As festas juninas faziam parte dessa bagagem. São João, Santo Antônio, São Pedro — o ciclo junino é profundamente enraizado na cultura do Nordeste, misturando catolicismo popular, folclore, música e culinária numa celebração que marca o meio do ano com alegria e pertencimento.

Nas invasões que se tornaram cidades-satélite, as festas juninas foram uma das primeiras formas de criar comunidade num lugar que ainda não tinha história. Eram o elo com a terra de origem e, ao mesmo tempo, o começo de uma nova tradição no cerrado.

O que o DF tem de diferente

Brasília é uma cidade feita de migrantes — e isso aparece nas suas festas juninas de formas que nenhum roteiro turístico consegue capturar completamente.

Aqui, o forró divide espaço com o funk e o sertanejo universitário. A quadrilha estilizada convive com a quadrilha tradicional. O arraiá da escola pública na Ceilândia tem uma energia completamente diferente do evento corporativo no Parque da Cidade — e ambos são Brasília, cada um à sua maneira.

Essa pluralidade é a marca das festas juninas do DF. Não há uma versão oficial, uma só forma certa de celebrar. Há uma multiplicidade de expressões que reflete a própria formação da cidade.

Os melhores arraiás do DF

Arraial do Cerrado — Um dos eventos mais tradicionais e bem organizados do calendário junino do DF, o Arraial do Cerrado acontece geralmente no Parque da Cidade e reúne shows de forró, quadrilhas, gastronomia típica e uma estrutura que atrai famílias de toda a cidade. É o tipo de festa que agrada tanto quem quer dançar até tarde quanto quem vai com criança pequena.

Festa Junina de Planaltina — Planaltina, a cidade mais antiga do DF, celebra o São João com uma festa que tem raízes profundas na cultura do interior goiano. O clima é mais intimista, mais tradicional, com quadrilhas que mantêm a coreografia clássica e uma gastronomia que vai além do padrão — o arroz doce de Planaltina, dizem os entendidos, não tem igual no DF.

Arraiás das regiões administrativas — Ceilândia, Samambaia, Taguatinga, Gama — cada uma tem seus próprios arraiás, organizados por igrejas, escolas, associações de bairro e grupos comunitários. São as festas mais autênticas do calendário, menos polidas e mais vibrantes, onde a tradição trazida pelos candangos se mantém mais viva.

Festa Junina do Pontão do Lago Sul — Para quem prefere um ambiente mais sofisticado sem abrir mão da celebração, o Pontão costuma receber eventos juninos com boa estrutura gastronômica, shows e vista para o Lago Paranoá. O clima é diferente dos arraiás tradicionais, mas tem seu charme próprio.

A comida que não pode faltar

Uma festa junina sem a comida certa é só uma festa com bandeirinhas. E nesse quesito, o DF tem muito a oferecer.

A canjica — também chamada de mugunzá em alguns estados — é o prato símbolo do São João. Milho branco cozido com leite de coco, leite condensado e canela, servido quente numa noite de inverno seco, é uma das combinações mais felizes da culinária brasileira.

O milho verde aparece em todas as formas possíveis: cozido, assado, em pamonha, em curau, em bolo. A pamonha goiana — diferente da versão nordestina, mais úmida e com versões doces e salgadas — é um capítulo à parte que o DF abraçou com entusiasmo.

O quentão é o companheiro indispensável do frio junino. Feito com cachaça ou vinho, gengibre, canela, cravo e outras especiarias, ele aquece o corpo e anima a festa com uma eficiência que nenhum outro drinque de inverno replica.

O amendoim — torrado, cozido, em pé de moleque, em paçoca — está em todo canto. Não há festa junina sem ele.

Por que as festas juninas importam

Numa cidade que ainda está construindo sua identidade cultural, as festas juninas têm um papel que vai além da celebração. Elas são um dos momentos em que Brasília reconhece suas raízes — as raízes dos candangos que a fizeram, de uma cultura popular que resistiu ao planejamento e ao tempo.

Participar de um arraiá em Brasília é participar de uma história que começa no Nordeste, atravessa o cerrado e continua sendo reescrita toda vez que o forró começa a tocar e alguém puxa um par para a quadrilha.

Esse é o São João do cerrado. E vale cada bandeirinha.


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