Brasília, 66 anos: o que a capital ainda promete — e o que ela já entregou

(Série: Viver Brasília)

No dia 21 de abril de 1960, Juscelino Kubitschek inaugurou uma cidade que não deveria existir. No meio do cerrado, a centenas de quilômetros de qualquer grande centro urbano, num prazo que engenheiros consideravam impossível, nasceu Brasília.

Sessenta e seis anos depois, vale olhar para essa cidade com honestidade — sem o romantismo do cartão-postal e sem o cinismo fácil de quem nunca entendeu o que ela representa.

O projeto e a realidade

Brasília foi concebida como utopia. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer não estavam apenas projetando uma capital administrativa — estavam propondo um novo modo de viver, uma cidade que incorporasse os princípios do urbanismo moderno: separação de funções, abundância de espaço, convivência democrática entre diferentes classes sociais.

O Plano Piloto, tombado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1987, é o testemunho mais concreto de que parte dessa utopia se realizou. As superquadras, os eixos, a escala monumental da Esplanada — há algo genuinamente singular ali, uma cidade que nenhuma outra no mundo repete.

Mas a utopia tinha limites que seus criadores não previram — ou escolheram não ver.

A cidade que cresceu fora do plano

Enquanto os arquitetos desenhavam as curvas do Congresso Nacional, milhares de trabalhadores chegavam ao Planalto Central para construir a nova capital. Eram candangos — nordestinos, goianos, mineiros — que ergueram com as mãos o sonho de outros e que, no momento da inauguração, foram empurrados para fora do perímetro planejado.

As cidades-satélite nasceram dessa exclusão. Taguatinga, fundada em 1958 — dois anos antes da inauguração oficial de Brasília — já era a resposta a uma pergunta que o projeto não quis responder: onde vive quem constrói a utopia?

Hoje, o Distrito Federal tem mais de três milhões de habitantes. Menos de um terço mora no Plano Piloto. A Brasília real é Ceilândia, Samambaia, Sobradinho, Gama, Planaltina, Santa Maria — cidades com identidade própria, história acumulada e uma relação com a capital oficial que oscila entre pertencimento e distância.

Entender Brasília aos 66 anos exige olhar para esse território inteiro, não apenas para o traçado de Lúcio Costa.

O que a cidade entregou

Apesar das contradições, Brasília entregou coisas que merecem ser reconhecidas.

Entregou uma arquitetura que é, genuinamente, patrimônio da humanidade. Não no sentido burocrático do tombamento, mas no sentido real: há algo nos volumes de Niemeyer, na perspectiva da Esplanada ao amanhecer, no reflexo do Congresso na água do espelho d'água, que pertence à história da civilização.

Entregou uma cidade que, apesar da segregação original, desenvolveu ao longo das décadas uma identidade cultural rica e plural. A música de Brasília — do rock oitentista ao rap de Ceilândia — é uma das mais originais do Brasil. A cena gastronômica, os coletivos culturais, os festivais que ocupam os espaços públicos mostram uma cidade viva, criativa, que não se limita à função administrativa para a qual foi criada.

Entregou, também, uma das maiores concentrações de áreas verdes urbanas do mundo. O Parque Nacional dentro da cidade, o Jardim Botânico, os parques das regiões administrativas, as veredas que ainda resistem — Brasília é uma cidade onde a natureza ainda é acessível, e isso é um privilégio que seus moradores às vezes esquecem de valorizar.

O que ainda está em dívida

Mas a honestidade exige nomear também o que não foi entregue.

A promessa de uma cidade democrática — onde diferentes classes sociais viveriam lado a lado nas superquadras — nunca se cumpriu de fato. O Plano Piloto encareceu, segregou e se tornou inacessível para a maior parte da população que sustenta a cidade. A desigualdade entre o centro planejado e as periferias é uma das mais visíveis do Brasil.

O transporte público permanece insuficiente para uma cidade construída na escala do automóvel. O metrô, inaugurado em 2001 — quarenta e um anos depois da cidade — ainda não alcança a maioria das regiões onde a população efetivamente vive.

E há uma questão de identidade que Brasília ainda negocia consigo mesma. Uma cidade de 66 anos ainda é jovem — mas é jovem o suficiente para ter uma geração que nasceu aqui, cresceu aqui e construiu aqui um pertencimento que vai muito além do funcionalismo público. O brasiliense de nascença existe, e ele tem uma relação com essa cidade que não cabe na piada fácil de que "todo mundo é de outro lugar."

O que os 66 anos significam

Sessenta e seis anos é uma idade interessante para uma cidade. Jovem demais para ter resolvido todas as suas contradições. Madura o suficiente para olhar para trás com perspectiva.

Brasília é, ao mesmo tempo, o símbolo de uma audácia que funcionou e o espelho de uma desigualdade que o Brasil não conseguiu superar nem na cidade que construiu do zero. É bela e injusta, planejada e caótica, orgulhosa e insegura quanto à própria identidade.

É, em resumo, uma cidade brasileira — com tudo que isso significa.

E vale a pena continuar olhando para ela com atenção. Porque uma cidade que foi construída contra todas as probabilidades tem, embutida na própria história, a prova de que transformação é possível.

Feliz aniversário, Brasília. Com carinho, com crítica e com a esperança de que os próximos 66 anos sejam mais justos do que os primeiros.


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